Os números do IBGE divulgados no início de junho pintam um quadro que os economistas chamam de "heterogeneidade estrutural" — uma forma elegante de dizer que o Brasil não é um país, mas vários, quando o assunto é mercado de trabalho. Enquanto São Paulo e o ABC paulista registraram uma leve redução na taxa de informalidade em 2025, o Norte e o Nordeste viram esse indicador crescer pelo quarto ano consecutivo.
A pesquisadora Cláudia Menezes, do Núcleo de Estudos do Trabalho da UFPA, não se surpreendeu com os dados. "A gente já sabia que a recuperação pós-pandemia foi muito mais rápida no Sul e no Sudeste. O que chama atenção agora é a velocidade com que a informalidade está crescendo em cidades médias do Nordeste", ela disse em entrevista à Veredas Hoje.
O relatório do IBGE mostra que, no Pará, a taxa de trabalhadores sem carteira assinada chegou a 58,3% no primeiro trimestre de 2025 — um aumento de 2,1 pontos percentuais em relação ao mesmo período de 2024. No Maranhão, o número é ainda mais expressivo: 64,7%.
O que está por trás dos números
Parte da explicação está na estrutura econômica dessas regiões. O Norte e o Nordeste têm economias mais dependentes de setores como agricultura familiar, comércio informal e serviços de baixa qualificação — todos historicamente mais resistentes à formalização. Mas há outros fatores em jogo.
O economista Paulo Sérgio Alves, da FGV, aponta que a expansão do microempreendedorismo individual (MEI) criou uma categoria híbrida que distorce as análises tradicionais. "Muitos trabalhadores que antes seriam contabilizados como informais hoje aparecem como MEI, mas na prática continuam sem acesso a direitos trabalhistas plenos", ele explica.
"A formalização via MEI resolveu um problema estatístico, mas não necessariamente um problema social. A pergunta que precisamos fazer é: esses trabalhadores têm renda estável, acesso a crédito, proteção em caso de doença?"
— Paulo Sérgio Alves, economista, FGV
Os dados do IBGE confirmam essa ambiguidade. Entre os MEIs registrados no Norte do país, 43% relataram renda mensal inferior a um salário mínimo no período analisado. Para efeito de comparação, o mesmo indicador no Sudeste é de 28%.
Políticas públicas e seus limites
O governo federal lançou em 2024 o programa "Trabalho Formal Mais", com incentivos fiscais para empresas que contratassem trabalhadores em regiões com alta informalidade. Os resultados, até agora, são modestos. Segundo o Ministério do Trabalho, foram gerados cerca de 180 mil empregos formais nas regiões-alvo — um número que os críticos consideram insuficiente diante da magnitude do problema.
A pesquisadora Cláudia Menezes é cética quanto às soluções baseadas apenas em incentivos fiscais. "Você não vai formalizar uma economia que tem déficit de infraestrutura, de educação e de acesso a crédito só com desoneração tributária. Precisa de uma política integrada, e isso leva tempo."
Enquanto o debate continua nos gabinetes de Brasília, os trabalhadores informais do Norte e do Nordeste seguem navegando por conta própria em um mercado que oferece pouca segurança. Para muitos deles, a informalidade não é uma escolha — é a única opção disponível.
Os próximos dados do IBGE, previstos para agosto, vão mostrar se a tendência se manteve no segundo trimestre. Economistas e pesquisadores aguardam com cautela.