Entrar na universidade pública é, para muitos jovens brasileiros, uma conquista que parece improvável. Mas permanecer até o fim do curso é, para uma parcela significativa deles, um desafio ainda maior. Um estudo divulgado pelo Observatório da Educação Superior da UFMG acompanhou 4 mil estudantes de primeira geração — ou seja, filhos de pais sem diploma universitário — matriculados em universidades federais entre 2021 e 2024. Os resultados são preocupantes.

Ao final do terceiro ano, 31% desses estudantes haviam abandonado o curso. Entre os que continuavam, 42% relataram ter considerado desistir em algum momento. A pesquisadora Lúcia Andrade, que coordenou o estudo, destaca que os motivos vão muito além da questão financeira, embora ela seja central.

Mais do que dinheiro

"A narrativa dominante é que o problema é econômico — e ele é, em parte. Mas o que os dados mostram é que há uma dimensão psicológica e social que raramente é discutida", explica Andrade. "Esses estudantes chegam à universidade sem os códigos culturais que os colegas de famílias mais escolarizadas já internalizaram. Isso cria um sentimento de não pertencimento que pode ser devastador."

"Eu me sentia um impostor. Todo mundo parecia saber o que estava fazendo, e eu ficava me perguntando se tinha entrado no lugar certo."
— Estudante de Engenharia Civil, UFBA, 3º ano

O relato acima, colhido durante a pesquisa, ecoa em dezenas de outros depoimentos. A chamada "síndrome do impostor" — a sensação de não merecer o lugar conquistado — aparece com frequência nos dados qualitativos do estudo, especialmente entre estudantes negros e de baixa renda.

O papel das bolsas de assistência

O Programa Nacional de Assistência Estudantil (PNAES) existe desde 2010 e oferece auxílios para moradia, alimentação e transporte. Mas os pesquisadores apontam que o programa, apesar de importante, tem lacunas significativas. Em muitas universidades, o número de bolsas disponíveis é menor do que a demanda, e o processo de seleção pode levar meses.

"Tem estudante que chega em março, precisa de auxílio moradia, e só recebe a resposta em julho. Nesse intervalo, muitos desistem", diz a professora Andrade. O estudo identificou que estudantes que receberam auxílio nos primeiros 60 dias de matrícula tinham 40% mais chances de permanecer no curso ao final do primeiro ano.

O que algumas universidades estão fazendo diferente

Algumas instituições têm experimentado abordagens complementares. A Universidade Federal do Ceará (UFC) implementou em 2023 um programa de tutoria por pares, em que estudantes veteranos acompanham calouros de primeira geração durante o primeiro semestre. Os resultados preliminares são positivos: a taxa de evasão no grupo acompanhado foi 18% menor do que no grupo de controle.

Na UFPA, um projeto de acolhimento cultural oferece oficinas sobre "vida universitária" — como funciona a biblioteca, como se comunicar com professores, como acessar os serviços da universidade. Parece básico, mas para quem não tem ninguém em casa que tenha passado por isso, faz diferença.

O estudo da UFMG será apresentado em agosto no Congresso Brasileiro de Educação Superior. Os pesquisadores esperam que os dados contribuam para uma revisão das políticas de assistência estudantil nas universidades federais.